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Procurar entender o desígnio Divino, e os seus modos de acção, é um objectivo primordial de muitos seres humanos, onde me incluo, mas existem diversos obstáculos, interligados, que tornam tal tarefa (quase) impossível:

Um deles é a imperfeição humana intrínseca --  o ser humano é alguém que se desenvolve e expressa em ambientes físicos, mentais e espirituais limitados; é uma condição básica que não parece ser possível ultrapassar: somos limitados na capacidade de compreensão da vontade e das leis divinas, como também em muitas outras coisas.

Somos imperfeitos por natureza e, além do mais, somos irresistivelmente seduzidos pela ilusão e pelo erro. Somos condicionados pela genética, pelo ambiente familiar e social, pelos nossos próprios pesares, temores e recalcamentos, mas também pelas nossa avidez, desejos inconsequentes, vaidades e arrogâncias. Em suma, diversos factores conjuram para nos vedar a obtenção da verdade divina.

Ansiamos pela liberdade, pela felicidade, pela perfeição, mas facilmente «preferimos» os caminhos obscuros, tortuosos e enganadores que não nos levam a nenhum lado duradouramente válido.

E, no entanto, são tantos os humanos que pensam que apenas eles estão do lado certo, que detêm as chaves do reino, que as suas palavras são infalíveis e que podem ditar as regras, geralmente aplicadas de forma dogmática sobre os outros... como se Deus lhes tivesse dado permissão para tal desrespeitar a liberdade e a vontade dos seus irmãos. E esquecendo a imperfeição humana, seguros nos seus orgulhos cegos e na ilusão da grandeza humana, soltam mandamentos e proibições, certezas absolutas e outras ilusões que têm acerca do mundo.

Na verdade, os seres humanos vão interpretando a realidade das coisas espirituais  à medida das suas necessidades e capacidades (ou incapacidades), e mesmo quando enviados divinos, profetas e místicos deixam as suas mensagens de elevação espiritual, a predisposição humana de distorcer e deturpar essas mensagens é assustadora. 

E tem sido assim ao longo da história da humanidade: por um lado, há sempre indivíduos ávidos, e mais impelidos por necessidades de poder do que de amor, que usurpam e abusam dos ensinamentos espirituais que nos foram deixados; por outro, estão todos aqueles que cheios de boas intenções vão divulgando as suas interpetações sobre a realidade espiritual, algumas porventura mais perto da verdade, outras possivelmente mais afastadas.

Muitos são os que elaboram as suas teorias a partir de mera reflexão (ou imaginação), não poucos adaptam ideias já existentes, e são em menor número aqueles que parecem realmente falar com autoridade, seja por experiência, seja por real orientação divina. Contudo, muitas vezes, são estes últimos que são abafados e ultrapassados pelos gritos dos mais ignorantes ou dos mais astutos.

Mas apesar de todas estas dificuldades, cada um de nós deve procurar o entendimento divino, não caindo na tentação dos ateus ou agnósticos que, face à corrupção das coisas sagradas pelos homens, negam a divindade, num aparente raciocínio superficial e algo desorientado. Pois se um diamante envolto em lama não deixa de ser um diamante, também a ideia de Deus, do Absoluto ou do Divino, não deixa de poder ser verdade apenas pelo que é feito em seu nome pela humanidade, ou pelas insuficiências descortinadas nas interpretações humanas.

E quando secundaríamos as diferenças que se conseguem encontrar em todas as religiões e correntes espirituais e procuramos antes os pontos comuns, verificamos que alguns princípios estão sempre presentes e podem constituir uma fonte de verdade espiritual. O resto são as habituais realizações humanas que impelem a que em cada monge se possa descobrir uma igreja, pois a história pessoal e o ambiente colectivo, com suas realidades intrínsecas, sempre determinaram perspectivas e entendimentos muito específicos de cada situação. Se alguns acreditam que há reencarnação, outros há que acreditam em ressurreição, e outros ainda em transmigração, renascimento ou metempsicose... para alguns é a alma que se perpetua, para outros o espírito, para outros ainda o corpo, ou até meros agregados cármicos.

Mas apesar de tantas visões distintas, uma coisa é comum: todos compartilham a ideia de uma realidade que permanece para além da vida mundana. Da mesma forma nenhuma crença nega a existência de um poder ou realidade imaterial que tem poder sobre a vida terrena e que determina um princípio de justiça global.

A procura de algo que nos é transcendente é uma das forças e qualidades da condição humana. Mas ter na mente que a parcialidade do raciocínio e do conhecimento são determinantes nessa mesma busca é um bom antídoto para uma das maiores tentações: a mania da certeza absoluta.

O autor destas palavras e dos textos apresentados nesta página procura divulgar alguns entendimentos de ordem espiritual, mas sabe que são fundamentalmente interpretações da realidade, possíveis verdades, pois ir mais além, e assegurar que constituem verdades plenas e indismentiveis percepções da realidade, é incorrer na tentação e nos erros acima indicados.

O que interessa fundamentalmente é que sejam entendidos como contributos da experiência e razão humanas. E se puderem ser úteis para alguém ter uma percepção mais ampliada e produtiva da vida, então já adquiriram a sua validade, apesar de tudo.

JMM

 

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